Gugu

Conheça mais sobre um dos pioneiros da pesca amadora e um dos pescadores mais admirados do Brasil

Conte como foi seu primeiro contato com a pesca?

Foi no Boqueirão, na Praia Grande (SP), aonde meu avó tinha uma casa que ficava na rua do 1º. canal . As margens desse canal (aquela época não poluído) eu passava horas do dia observando moradores do local fazerem fieiras de acarás utilizando varinhas de bambu e minhocas como iscas.

Quando descobriu que tinha talento para pescar?

Foi nesse mesmo local por volta dos oito anos de idade, quando cansei de apenas observar e decidi que precisava urgentemente pescar os meus próprios acarás. Na falta da tralha certa que só poderia ser obtida em São Vicente quando meu pai viesse no final de semana, pedi um pouco de linha de costura e um alfinete desses comuns para a minha a avó. Dobrei o alfinete, amarrei uma ponta da linha na cabeça dele e a outra ponta numa pequena varinha de bambu verde fornecida pelo meu avô, que também forneceu as minhocas da terra estercada da horta na qual ele passava a maior parte do dia. Após a decepção de muitos acarás fisgados que logo escapavam graças ao alfinete sem farpa e a varinha molenga, pedi ao meu avô uma mais dura e troquei a linha de costura pela linha “Corrente” que usava para “empinar”a minha pipa. Sucesso: após mais algumas fisgadas infrutíferas consegui capturar meu primeiro pequeno acará, assim meio que na “chascada.”



Você se lembra da primeira vez que usou uma isca artificial? Teve sucesso?

A primeira vez que usei iscas artificiais para valer, foi para pescar trutas arco-íris nos rios Bonito e Mambucaba na serra da Bocaina no final da década de 60. Pescaria que exigia duas horas em lombo de mula para chegar ao local. As iscas eram spinners Celta, e Mepps arremessados com uma vara Grilon de fibra de vidro e recolhidos por um molinete Mitchell 408 que guardo até hoje. Na segunda expedição ao local a vara foi trocada por uma Mitchell Conolon (que também guardo até hoje) de 4 ½ pés para iscas entre 2 e 8 g ( bem mais apropriada para a situação) e além dos tradicionais spinners usei pequenos plugs “Rapala F Original” de 5 e 7 cm.

Por que antigamente a pesca com artificiais sofria tanta resistência por parte dos pescadores brasileiros?

Não acho que o termo correto seja “resistência”, o que havia a meu ver - por falta de conhecimento – era falta de confiança.

O que fez, na sua opinião, o brasileiro aceitar a pesca com artificiais, a ponto de hoje uma boa loja de pesca não poder deixar de ter uma seção destinada só para elas?

Foi a comprovação da eficiência e principalmente da “esportividade” das mesmas, demonstradas e cantadas euforicamente em “prosa e verso” pelos pioneiros que as utilizavam, tanto através da mídia como nas rodas de amigos.

Conte um pouco de sua paixão pelo fly...

Está diretamente ligada ao meu interesse pelas trutas, que foram responsáveis pela minha entrada no apaixonante mundo da pesca esportiva. Procurava ler tudo que era possível sobre a pesca delas e sempre encontrava muito mais literatura a respeito tratando da pesca com fly do que qualquer outra. Comecei a me interessar cada vez mais e no começo da década de 80, com a decisiva ajuda de um dos pioneiros da modalidade no Brasil - Fábio Morganti – consegui aprender a arremessar corretamente e a escolher a tralha certa para cada situação. Também graças a ele fiz minhas primeiras expedições para a pesca de trutas na Patagônia e a partir daí fiquei irremediavelmente viciado.

Acha que a pesca com mosca, o fly, hoje já é mais popular que tempos atrás? Se sim ou se não, por quê?

Com certeza é muito mais popular. A trajetória é a mesma das iscas artificiais e apenas foi mais demorada porque no inicio muitos proprietários e funcionários de lojas tradicionais – que hoje oferecem inúmeras opções de equipamentos para a pratica da modalidade – diziam que pescar com fly era “coisa de fresco”.

Como foi a sua participação na construção ou na sustentação da APIA?

Tenho grande orgulho de duas coisas ao longo da minha trajetória no meio da pesca esportiva: a primeira foi ter sido um dos sócios fundadores da APIA (no. 10) e a segunda - no intuito de fortalecer a entidade através da divulgação das iscas artificiais – foi ter apresentado o primeiro vídeo profissional/comercial voltado a utilização das mesmas intitulado: “Introdução a Pesca com Iscas Artificiais.”

Aproveitando: como você chegou a ser um “pescador de mídia”? E como que chegou à Pesca & Companhia?

Cheguei na mídia para divulgar uma empresa que montei no final da década de 80 com o amigo e grande pescador Marcos Migliano – a Pesca Post, que foi o primeiro catálogo para venda de material de pesca do país. No inicio o catalogo era um encarte pago na revista Aruanã, até que os irmãos Marcos e Mateus Zillig, proprietários da revista Troféu Pesca, fizeram um convite para escrever sobre as nossas pescarias em troca da divulgação do catálogo.

A partir daí, além de escrever para a revista participei dos programas Pescadores do Brasil e Troféu Pesca na TV e também gravei vários vídeos para a Bíblia do Pescador.


Só abandonei os dois irmãos – pelos quais tenho muito carinho e reconhecimento – quando o amigo de 35 anos – Marcelo Claro assumiu a Pesca e Companhia e fez o convite para participar da renovação da mesma. E aqui eu estou com o “burro amarrado in aeternum”.

Por que o senhor acha que a revista Pesca & Companhia está prestes a completar 20 anos no mercado?

Essa é fácil: porque tem as melhores equipes em todas as áreas, o que permite produzir uma revista de qualidade indiscutível mesmo a nível internacional.

Vê com bons olhos o surgimento de novos pescadores de mídia? Que conselho daria para eles e para outros que sonham chegar a ser um Gugu?

Vejo com muito bons olhos. Acho que quanto mais gente competente entrar para a mídia, maiores as possibilidades de sermos ouvidos e atendidos pelos que legislam sobre a pesca e o turismo que anda paralelo a ela.

Quanto a chegar a ser um “pescador realizado” – que é o que me considero - a minha sugestão é ter sempre humildade para aprender, reconhecer e corrigir eventuais erros, ser parceiro da natureza e acima de tudo respeitar profundamente o publico ao qual vai se dirigir.

Por que outros grandes pescadores brasileiros te consideram um “pescador eclético”?

Na verdade acho que essa imagem ficou pelo fato de ter tido a oportunidade de mostrar nas revistas e na TV muitas modalidades de pesca distintas, mas isso em grande parte só aconteceu graças ao conhecimento e participação de grandes pescadores com os quais tive o prazer de pescar e que em muitas ocasiões eram os que realmente dominavam uma ou outra técnica especifica.

O Gugu tem alguma preferênciade pescaria: no mar, no rio? E alguma espécie predileta?

Trutas com fly nos rios da Patagônia e robalos com artificiais na região de Cananéia.

Tem alguma pescaria que pode definir com a melhor que já fez na vida?

Para mim todas as pescarias, com ou sem peixe, são boas porque o que realmente conta é estar pescando, mas se for falar da que mais marcou a minha carreira na mídia foi a do robalão capturado na barra do rio Puruba em Ubatuba durante a gravação de um dos episódios do “Pescadores do Brasil”.

É a favor do pesque e solte? Por quê?

Sou a favor porque acho que o peixe tem muito mais valor vivo do que morto. Tanto pela satisfação pessoal de pescar em locais com muito peixe, tanto pela importância fundamental que ele tem para o sucesso de qualquer empreendimento voltado para a pesca esportiva. Não adianta ter instalações, equipe e equipamentos de primeira se não tiver peixe. E digo isso com conhecimento de causa porque já fui proprietário de dois empreendimentos do ramo. Acho importante também, deixar claro que não sou radical, pois acho que sacrificar um peixe vez ou outra para saborear com a família ou com os amigos faz parte do jogo. Detalhe: nunca sacrifiquei propositalmente grandes exemplares de qualquer espécie, pois acho que se eles chegaram aonde chegaram são porque tem a melhor genética e devem viver para transmiti-la aos seus descendentes. Se isso não fosse coerente os fazendeiros matariam os touros reprodutores para fazer churrasco para os amigos com direito a fotos ao lado dele pendurado em alguma arvore, antes de virar picanha.

Fora da pesca, fale um pouco sobre o Gugu no dia a dia. Qual sua profissão?

Eu me formei em economia pela Universidade Mackenzie em 1971 e até 1977 trabalhei numa empresa de reflorestamento que atuava no sul do estado de São Paulo e no município de Água Clara no Mato Grosso do Sul. Em função do trabalho ia uma vez por mês para Água Clara e fiz pescarias memoráveis de dourados e piracajubas no maravilhoso Rio Verde que corta o município. No final de 1977 (casado e com a primogênita Priscila recém nascida), decidi sair de vez da estressante São Paulo e mudei para a paradisíaca Ubatuba que já era meu refúgio de finais de semana.

Inaugurei a Pizzaria Perequim na praia de mesmo nome e no ano seguinte mais uma casa do ramo, a Cantina Perequim na praia do Cruzeiro ao lado da cidade. O tempo que fiquei em Ubatuba abriu as portas para o meu aprendizado na pesca dos robalos. Como – fora de temporada – só abríamos de sexta a domingo, pude dedicar muitos dias de semana para eles. Vez ou outra, para variar um pouco, ia atrás das enchovas nas ilhas das Palmas e Anchieta.

Em 1981, logo após o nascimento do hoje Dr. Rodrigo, no intuito de oferecer mais opções de estudo para os filhos e também para continuar no ramo de pizzaria e restaurante, mas sem depender da sazonalidade de cidades de veraneio, mudei para Taubaté aonde inaugurei a Pizza Nostra que está completando 32 anos.

Após a mudança para Taubaté e graças ao apoio da minha querida esposa, Sandra, montei na década de 90 (com mais três sócios) o Rancho Mata Verde no Rio Comandante Fontoura e depois a Pousada Iriri que começou a operar em 2003, mas que lamentavelmente foi obrigada a encerrar suas atividades anos depois em função da criação da Estação Ecológica da Terra do Meio que abrangeu a área da pousada.

Quem é seu ídolo?

Meu saudoso pai, que por suas atitudes ao longo da vida me fez compreender que a honradez é o maior patrimônio que uma pessoa pode conquistar.

Tem alguma mania enquanto pesca?

Ficar com a roupa limpa e bem arrumada do começo ao fim da pescaria.

O que tem que aprender ainda?

Tudo que não sei e que é muita coisa.

Qual o lugar que sugere para o leitor ir?

Acho indispensável conhecer e pescar no Estuário-Lagunar de Cananéia e Iguape. Na minha opinião, uma das regiões mais belas, preservadas e piscosas do planeta.

Tem algum lugar que pretende conhecer?

Escócia, para pescar salmão e verificar pessoalmente como é fabricada a bebida que mais aprecio.

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